Análises

Embracelet — Análise

O ano de 2020 parece não ter nos dado nenhum momento para respirar. O medo, o desespero e a incerteza reinaram durante esses quase doze meses que passaram. No meio desse cenário quase apocalíptico, um jogo como Embracelet — uma história aconchegante de amadurecimento em uma ilha isolada no norte da Noruega — parece caiu como uma luva para qualquer um que deseje um minuto de paz e calmaria.

Desenvolvido por Mattis Folkestad e publicado por sua empresa Machineboy em 24 de setembro deste ano para PC, Switch e iOS, Embracelet é um jogo de aventura no sentido mais literal da palavra. Controlando o protagonista Jesper, de 17 anos, o jogador é instruído a ir para a ilha fictícia de Slepp, onde seu avô havia crescido, após a morte deste. Antes de morrer, porém, o avô lhe presenteia com um bracelete poderoso que parece atrair Jesper para esta ilha, e a história que começa como uma simples missão de encontrar o dono do bracelete se desdobra em tramas de amizade, amor, descobrimento pessoal, perda e mistério. O jogabilidade lembra os clássicos de point-and-click da LucasArts em seus ângulos de câmera e enfoque nas escolhas de diálogo e exploração dos personagens, com uma novidade adicional trazida pelo bracelete do protagonista, que permite a inserção de pequenas seções de puzzle.

A jogabilidade de Embracelet mistura exploração e puzzle.

Filho de uma mãe viúva e sem ter nunca conhecido o pai, Jesper é um adolescente prestes a chegar à maioridade em Oslo, capital e maior cidade do país. Anos depois do falecimento de sua avó, seu avô está em uma clínica com problemas respiratórios. Lá, ele conta a Jesper sobre sua infância e juventude em uma remota ilha no norte da Noruega, chamada de Slepp, e recomenda que seu neto vá até ela e devolva o bracelete que ele tinha trazido de lá. A sua hesitação em contar o motivo que o fez sair da ilha intriga Jesper. Apesar de negar a viagem ao filho a princípio por estar muito ocupada com o trabalho, sua mãe acaba cedendo logo após a morte do avô. Um acidente com sua mochila no meio do caminho o faz perder todos os seus pertences e o força a praticamente começar uma vida nova por uma semana na ilha.

Ao chegar na ilha, Jesper conhece os dois adolescentes que lá vivem, Hermod e Karoline, bem como uma gama de adultos e idosos que viveram em Slepp por todas as suas vidas. O choque de gerações é um tema constante em Embracelet, bem como o conflito entre a vida em vilas e em cidades grandes que os adolescentes são obrigados a enfrentar. A história começa a ficar mais misteriosa quando barcos petroleiros começam a procurar pelas águas da ilha. Sem dúvida o ponto mais forte do jogo, o enredo é cativante e comovente. Os diálogos parecem muito naturais em sua melancolia e graça, sem forçar uma emoção mais exagerada do que é preciso para a cena em questão.

Jester acaba por conhecer os habitantes locais.

Além dos vários personagens da ilha, a própria Slepp é um personagem por si só, sendo introduzida como uma vila em decadência depois da quebra da economia local. Mesmo com gráficos simples, a ilha parece um ser vivente, que respira junto com todos os humanos e animais lá presentes. Embracelet também é relaxante à medida que permite o jogador suavemente passe de missões principais a missões secundárias assim que quiser, balanceando a intriga do enredo com a exploração das vidas cotidianas dos habitantes locais. As escolhas do protagonista também parecem significativas, com o jogo oferecendo diferentes finais, surgindo assim o fator replay.

A ilha é um personagem por si só.

Outro aspecto que tem grande influência na narrativa são os efeitos sonoros, que no jogo são propositadamente minimalistas, dando espaço às músicas emocionantes que carregam as emoções do jogador com suas marcantes faixas de piano. Sua ausência ocasional também carrega um grande peso, marcando uma sensação de abstinência e solidão. Apesar de gostar dos gráficos simples de Embracelet, as animações por vezes deixam a desejar. Eu via o potencial de algumas cenas para transmitir ainda mais emoção, mas este era cortado por animações pouco fluidas e expressivas, praticamente limitando as expressões faciais a “expressão genérica” e “sorriso”. Não me entenda mal, isso não limita de forma alguma a sentimentalidade da trama, mas poderia incrementá-la caso fosse feito de uma maneira diferente.

A direção de arte funciona para o jogo, mas as expressões faciais deixam a desejar.

Comecei a jogatina de Embracelet sem saber o que esperar, e terminei a mesma quatro horas depois aplaudindo, secando as minhas lágrimas e querendo jogar de novo, sentindo aquela sensação quentinha no coração, como aquela que se sente com o abraço de alguém que gostamos. Seria difícil não recomendar este jogo em um ano normal, e em 2020 ele se torna praticamente obrigatório.


Conclusão

Embracelet é um abraço virtual da Machineboy para qualquer um que queira jogá-lo. De alguma forma, ele conta uma história clássica e apaixonante de amadurecimento com uma reviravolta que faz o jogador sentir tudo e mais um pouco, ainda assim sem tropeçar em si mesmo.

(cópia para análise gentilmente cedida pela Machineboy)

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