Análises

NUTS — Análise

Algumas atividades da vida real parecem monótonas demais para possivelmente funcionarem em um videogame. Por exemplo, eu jamais imaginaria que um jogo sobre aprovar documentos de imigração poderia funcionar — não preciso nem dizer que Papers, Please calou a minha boca, né? Outro exemplo desses é a observação de animais em seus habitats naturais. Posicionar câmeras em pontos estratégicos e esperar até à noite para poder analisar os comportamentos de meros esquilos parecem ocupações que dariam sono até nos mais hiperativos. Joon, Pol, Muuutsch, Char & Torfi se juntaram para provar que, com uma equipe talentosa, nada é impossível.

Publicado pela Noodlecake Studios em 22 de janeiro para iOS e com lançamento planejado para 4 de fevereiro para PC e Switch, NUTS é um jogo de aventura e mistério sobre rastrear os movimentos de esquilos nativos à floresta fictícia de Melmoth. No início, o jogador só sabe que foi levado à floresta por Simon e que será contactado periodicamente pela pesquisadora ambientalista Nina, que dará instruções. Entretanto, o enredo vai se desenvolvendo à medida que o comportamento dos esquilos vai ficando cada vez mais estranho, e Nina conta que essa não é a primeira pesquisa relacionada ao animais no local. Tudo isso culmina num final que, para evitar spoilers, não irei descrever, mas que achei bastante satisfatório.

O jogo é sobre observar a natureza, mas muito da investigação se passa dentro da sua caravana.

O gameplay não evolui muito além de posicionar as câmeras, voltar à sua caravana e assistir os esquilos se comportando, coisa que se repete a cada dia até alcançar seus objetivos. A princípio, achei que isso seria repetitivo demais, mas o jogo soube quando adicionar coisas novas e mudar a jogabilidade para não torná-la monótona durante os 6 capítulos disponíveis. Dito isso, ainda preferia que houvesse um pouco mais de variedade nesse quesito. O que mais me impulsionou para continuar jogando, porém, foi a narrativa, que se torna cada vez mais interessante. O mistério em questão fica mais tenso a cada fotografia enviada à Nina, e o que a princípio era uma experiência de contato com a natureza vira quase uma história de detetive. Existe algum conteúdo opcional no jogo que adiciona certa liberdade, mas ele se baseia apenas em expansão da história e pequenos bônus visuais, não ampliando a jogabilidade em si.

É estranho dizer que um jogo sobre observar esquilos pode ser assustador, mas essa é a verdade em NUTS. Apesar de nunca propriamente adentrar no gênero de terror, ele por vezes se utiliza de uma combinação da sensação visual e sonora de isolamento com sutis efeitos que dão uma sensação fantasmagórica de que os esquilos não são os únicos sendo observados nessa história. Não foram poucas as vezes onde senti calafrios, tendo que parar e observar os meus arredores para garantir que estava mesmo sozinho, e isso é agravado ainda mais pelo enredo misterioso. Eu, que esperava um jogo altamente casual, fiquei positivamente surpreso. Meu jogo sofreu um crash uma vez, e me fez perceber algo que poderia ter me incomodado muito. É impossível salvá-lo durante capítulos. Felizmente, eu tinha feito pouco progresso naquele capítulo em específico, mas teria ficado muito mais inconformado se o mesmo tivesse acontecido dez minutos antes, por exemplo, quando estava quase a terminar o capítulo anterior.

É inesperado, mas NUTS consegue ser arrepiante.

Isso me leva ao assunto da trilha sonora do jogo, que é espetacular. É possível, com atenção, ouvir cada folha das árvores se movimentando, o vento sibilando, as patinhas dos esquilos batendo na terra, cada passo dado pelo jogador, os pássaros cantando, e todos os outros sons que se espera de um ambiente natural isolado. Por vezes, tive de pausar o jogo, e quando o fazia percebia o quão imerso estava naquele mundo, e o quão rápido eu conseguia voltar a imergir mesmo após sair dele. A paisagem sonora de NUTS é, sem dúvida, uma das melhores que eu já tive o prazer de vivenciar. Essa experiência ainda é complementada pelas faixas musicais, que aparecem raramente, mas quando o fazem complementam com maestria a atmosfera do jogo. Uma faixa que me chamou a atenção positivamente foi tocada no início, possuindo um instrumental com sintetizadores em um ritmo acelerado que fizeram lembrar as melhores canções de Robyn, como “Dancing on my Own” e “Call Your Girlfriend”. Nina, única personagem no jogo com voz, é muito bem dublada por Almut Schwacke.

Confesso que achei um pouco estranho ver o nome de Kalonica Quigley nos créditos com as tarefas de “modelos e animação de esquilos”, mas ao jogar percebi o quão fundamental ela foi para o sucesso de NUTS. Como os únicos seres constantemente móveis do jogo, os esquilos dão vida a ele, e seus movimentos adicionam um realismo muito bem vindo. Em uma direção contrária mas ainda de forma positiva, as cores do jogo são quase abstratas, chamando bastante atenção. Em geral, cada um dos mapas possui uma combinação bicolor para o dia e outra para a noite, sendo raro ver três ou mais cores na tela de uma só vez. Isso confere um visual absolutamente único, que o destaca da multidão.

Os gráficos de NUTS são indiscutivelmente únicos e absurdamente belos.

Não pude deixar de notar o nome de Lucas Pope nos agradecimentos especiais do jogo, e me pergunto se o desenvolvedor ajudou de alguma forma a trazer os gráficos do jogo à vida, já que o traçado do cenário e objetos me lembra bastante de Return of the Obra Dinn, jogo que rejoguei recentemente e que vocês já sabem que amo.


Conclusão

Desenvolvido por uma equipe remota composta por pessoas de todos os cantos do mundo, NUTS é uma experiência singular e surpreendentemente efetiva para o que parece ser apenas um simulador de fotografar esquilos. É possível sentir como cada aspecto do jogo foi feito com a maior atenção e carinho, mas não há como negar que mais variedade na jogabilidade e alguns pequenos ajustes seriam ideais para que essa obra se tornasse uma obra-prima.

(cópia para análise gentilmente cedida pela Noodlecake)

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