Análises

Pikuniku – Análise

Quem imaginaria que a Devolver Digital, empresa que havia se popularizado inicialmente por publicar jogos da série Serious Sam, freneticamente sangrentos, algum dia publicaria um jogo tão fofo e inofensivo quando Pikuniku? Pois é, este jogo parece ser um símbolo do caminho que a publicadora vem traçando há algum tempo, se distanciando da identidade monotônica que a popularizou, com Serious Sam, Hotline Miami e Shadow Warrior, por exemplo, para abraçar uma visão mais ampla do cenário indie. O caráter inofensivo de Pikuniku que, por um lado, expande os horizontes da Devolver, por outro lado resulta em um produto por muitas vezes desinteressante e tedioso, apesar de alguns momentos brilhantes.

De cara, o jogo apresenta uma propaganda frenética e nonsense de robôs que vão às cidades, coletam lixo e dão dinheiro aos habitantes. Essa loucura contrasta com o que vem logo depois. Piku, o protagonista oval e vermelho cujas únicas características notáveis são suas longas pernas e seus olhos pretos, acorda em uma caverna e é recebido por um fantasma. Desde os primeiros momentos, a identidade do jogo já transparece claramente. O cenário e os personagens com designs minimalistas, a completa ausência de qualquer elemento de HUD e os diálogos desengonçados e autoconscientes já mostram o que vem pela frente.

O segmento da caverna serve como um tutorial para o jogo. Não um tutorial de movimentação, como é comum na maioria dos jogos, mas um tutorial de interação com o cenário. Piku interage com objetos, chuta pedras, se esgueira por pequenos túneis, nada em laguinhos e atravessa blocos que se autodestroem, pavimentando o caminho para a maior parte da jogabilidade presente no jogo. As animações de cada ação são propositalmente desengonçadas e estranhas, combinando com o tema abrangente. É um começo promissor.

O tema minimalista e nonsense do jogo é aparente desde o início.

A música, também minimalista, agrada quanto se está dentro da caverna. Ao sair da caverna, porém, ela se torna mais densa e rápida, além de repetitiva, começando gradativamente a irritar. Logo do lado de fora da caverna, Piku encontra uma placa que indica que uma besta estaria dormindo dentro dela. O simples enredo se desenrola a partir daí. Pikuniku é cheio de pequenos segredos que não se ligam a nada. Isso não é uma reclamação. Na verdade, esses segredos dão um charme extra ao jogo e, por vezes, arrancam um sorriso. Como um exemplo, Piku pode encontrar um insetinho da grama. Ao se aproximar, o jogo dá um zoom no inseto, que dança por alguns momentos e voa para longe. E é só isso. Esse inseto nunca aparece novamente e nunca é mencionado, mas esse evento completamente louco ajuda a criar uma atmosfera estranhamente divertida.

Mais para frente, Piku passa por cima de uma ponte, quebrando-a. Logo depois, se depara com alguns habitantes de uma vila, que o confundem com uma besta lendária e feroz, prendendo-o em uma jaula. Nesse momento, o enredo ameaça tentar fazer algum comentário sobre a fé cega em lendas milenares, mas a mensagem é perdida, e o jogo parece não ter muito interesse em explorá-la. Depois de algum tempo o observando, os habitantes percebem que Piku não é nenhuma besta, e decidem soltá-lo com a condição de que ele conserte a ponte que havida quebrado. Consertando a ponte, Piku deve agora ajudar a vila a se livrar de Mr Sunshine — o personagem que aparece na propaganda do início do jogo –, que quer destruir todos os recursos naturais do mundo para benefício financeiro próprio. É uma narrativa extremamente clichê que lembra em muitos momentos O Lórax, mas que compensa a previsibilidade dos pontos importantes da história com pequenos eventos interessantes e imprevisíveis. Em alguns momentos, porém, o jogo parece tentar ser estranho até demais, quebrando a imersão e até dando um pouquinho de vergonha alheia.

Esses eventos imprevisíveis por muitas vezes resultam em minijogos que fazem variar o gameplay do jogo, e geralmente são muito divertidos. Em outros momentos, existem puzzles simples baseados em física que são satisfatórios e agradáveis. Durante a maior parte de Pikuniku, porém, predomina uma jogabilidade de plataforma extremamente básica e insossa. O jogo parece ter se esforçado tanto para se diferenciar em outros aspectos que esqueceu de criar uma jogabilidade abrangente interessante. O máximo que ele adiciona é o salto desgovernado de Piku, que rodopia sempre que pula. Isso, porém, atrapalha muito mais do que ajuda, já que o personagem tem que se “ajeitar” sempre que cai de novo no chão. A mecânica de chute parece nova ao início, mas não faz nada que um simples empurrão não pudesse fazer, mecânica presente em jogos de plataforma há décadas. Como na maior parte das coisas em Pikuniku, o estilo foi priorizado sobre o conteúdo. Em uma das fases finais, o jogo começa a apelar para estratégias baratas de aumento de dificuldade, que não deveriam ter lugar.

Os minijogos eventuais são o ponto alto de jogo quando se trata de jogabilidade.

Grande parte do jogo se passa no mesmo cenário e, consequentemente, com a mesma música de fundo. A trilha sonora do jogo é cheia de sintetizadores em tons muito altos, que pareciam arranhar o meu cérebro depois de alguns minutos ouvindo o mesmo loop de alguns segundos. Apesar de efeitos sonoros divertidos e algumas faixas interessantes, a trilha sonora é definitivamente o aspecto que mais me incomodou durante todo o jogo, chegando ao ponto de me forçar a tirar os fones de ouvido para não enlouquecer. Ela irrita a nível de manchar momentos do jogo que poderiam ser ótimos, tornando-os profundamente irritantes.

Diferente da trilha sonora, os gráficos de Pikuniku são consistentemente muito agradáveis. As cores vibrantes e os designs minimalistas trazem alegria, razão principal que me manteve jogando o jogo. Podem existir alguns problemas durante o jogo quando se trata da diferenciação de background e foreground, além da percepção da interatividade de cada objeto, mas nada que afetasse muito significativamente o gameplay. As formas geométricas e sem qualquer noção de profundidade dão um charme ao jogo, diferenciando-o de qualquer outro. As animações também são muito charmosas. A única vez que o jogo conseguiu me fazer genuinamente gargalhar foi quando, depois de conversar com Piku, um dos habitantes deu um salto mortal para trás em desespero. Essa imprevisibilidade em função da comédia já foi explorada em outros jogos como Everything, e também funciona bem aqui.

Nesse momento, você deve estar se perguntando o que significa “niku” em Pikuniku. Bem, Niku é o personagem controlado pelo segundo jogador em uma eventual jogatina em dupla, restrita a nove níveis isolados da campanha. Jogar com outra pessoa sempre acaba por ser divertido e os movimentos desengonçados dos personagens criam situações engraçadas, mas os cenários nesses níveis são pouco imaginativos, e o foco no gameplay fraco do jogo sobre os momentos engraçados da campanha exalta o que há de pior e enterra o que há de melhor. Embora os puzzles no modo cooperativo sejam geralmente simples e o modo pareça uma ideia de última hora, é sempre bom ver um jogo que valoriza a ideia do couch co-op.

O modo cooperativo é bem-vindo, mas parece ter sido uma ideia de última hora.

Cheio de boas ideias, Pikuniku seria um produto muito melhor se tentasse se diferenciar da maioria dos outros jogos também no seu gameplay, e não apenas no seu estilo. Tanta peculiaridade acaba se perdendo quando se percebe que a jogabilidade é exatamente igual à de inúmeros jogos que vieram antes dele. O time da Sectordub tem muito potencial e criatividade, só falta encanar essas virtudes para os aspectos que precisam dela. No fim das contas, esse jogo funciona mais como uma declaração da Devolver Digital do que como um indie interessante que será lembrado como algo novo.

Conclusão
Pikuniku é um pequeno joguinho que pode ser muito divertido e até mesmo engraçado em certos momentos, mas em grande parte do tempo é tedioso e trivial. Ele brilha mais forte quando não tem medo de ser naturalmente estranho, mas por vezes tenta demais fabricar uma estranheza que não lhe pertence.

Pikuniku está disponível para PC e Switch. Para esta análise, o jogo foi testado no PC.

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