Análises

Baba is You – Análise

Nenhum ditado popular e um jogo alguma vez se encaixaram tão bem quanto “não julgue um livro pela capa” e Baba is You, do finlandês Arvi Teikari. Os visuais, bastante simples, escondem uma dificuldade extrema e inesperada, que requer do jogador muito mais do que apenas habilidade — requer pensamento lógico e de programação. O resultado desse contraste é um dos jogos de puzzle mais inovadores dos últimos tempos, mas que pode levar a momentos de frustração e aborrecimento em fases posteriores.

Logo na primeira fase, já é possível perceber o charme do jogo. Estão presentes pedras, paredes, Baba e uma bandeira. Mas o que chama mais a atenção são quatro regras que circundam o cenário. Sim, o jogador pode simplesmente tirar as pedras do caminho e tocar na bandeira para vencer a fase, mas os mais inventivos perceberão que as regras são completamente editáveis, com Baba podendo empurrar caixas de texto. Assim, o jogador pode tornar as paredes empurráveis, ou se transformar na bandeira e vencer nas pedras, ou qualquer combinação que desejar. Essa criatividade é deliciosamente refrescante, e pode ser sentida nas fases que se seguem.

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A criatividade do desenvolvedor floresce desde a primeira fase.

As fases estão espalhadas por um mapa do mundo que a princípio parece supérfluo, mas por seguir as mesmas mecânicas das fases, acaba abrindo espaço para exploração e descoberta de níveis secretos. Os mundos não precisam ser completados em sua totalidade para a progressão do jogo, sendo algumas fases opcionais. Isso permite que o jogador ignore as fases mais complicadas e mesmo assim não desista do jogo. Esse formato de jogo, dividido em fases, foi sem dúvidas a melhor escolha para Baba is You, já que longas jogatinas tornam as mecânicas cansativas e banais.

Baba is You é um dos jogos mais difíceis que eu já joguei, e definitivamente não segura sua mão. Sim, no nível de Cuphead, Battletoads, Dark Souls, ou Super Meat Boy. Diferente desses jogos, porém, a dificuldade vem pela solução dos puzzles, e não por necessidade de reflexos ou memorização. Mas Baba is You é também um dos jogos com a dificuldade mais inconsistente que eu já vi. É comum encontrar, entre as fases mais simples do início, uma fase extremamente difícil, bem como encontrar uma fase ridiculamente fácil quase no final do jogo. A curva de dificuldade do jogo possui uns picos e vales inexplicáveis.

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Não se surpreenda ao encontrar um nível simples no meio de uma sequência de fases desafiadoras.

É a partir da metade do jogo que ele começa a se perder. Em uma tentativa de agravar ainda mais a dificuldade, o desenvolvedor acaba por aplicar táticas baratas que pioram o gameplay por todas as métricas. Novas regras são gradualmente sendo introduzidas, e isso continua até o final do jogo. Eu cheguei a um ponto onde já não conseguia entender como todas funcionavam, e confundia os efeitos de cada regra ou objeto. O fato de que as regras podem ser muito vagas também não colabora positivamente. O sentimento é que as regras fazem o que o desenvolvedor quiser na hora que ele quiser, sem dar valor à consistência ou experiência do jogador.

Alguns níveis contam com uma dezena de regras, e são, honestamente, atordoantes. Por onde começar quando há tantas possibilidades? É como pôr alguém no meio de um campo aberto e pedir que encontre uma moeda de 5 centavos. É algo que torna a fase em questão frustrante desde o início. Acentuando ainda mais essa frustração, as soluções para as fases se tornam cada vez mais específicas, chegando ao ponto onde parece quase impossível que um ser humano consiga encontrá-la sem passar horas na base da tentativa e erro. Baba is You vai perdendo seu charme por tentar coisas demais, quando ficaria melhor ajustando e aprimorando o que já tinha.

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Às vezes, a quantidade de coisas na tela é atordoante.

Eu estava extremamente frustrado quando, de repente, surgiu um novo bloco de texto. Brinquei com as possibilidades e me encontrei me divertindo como não havia desde o início do jogo. Esse bloco me lembrou da qualidade fundamental deste jogo, e me trouxe relativa tristeza por perceber o que o jogo poderia ser, caso tivesse se contido e não tentasse ser tão extremo como é. Alguns momentos de quebra de quarta parede e mecânicas trazem de volta refrescância ao jogo. Mas não posso deixar de sentir que Arvi Teikari jogou tudo na parede para ver o que colava e, apesar de muita coisa colar, parte substancial cai de volta no chão.


Conclusão

Baba is You tem picos de diversão muito altos, especialmente no início e na introdução de algumas novas regras, mas seus vales são horríveis. Tentando ser extremamente difícil, o jogo só acaba com um mau design de níveis, frustrante e cansativo. O jogo parece ter se esquecido de que menos geralmente é mais.

(cópia para análise gentilmente cedida por Arvi Teikari)

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